A morte da ilusão paterna

 

“Tive um sonho muito cheio de elementos que achei curioso e gostaria de entender. Gosto muito de um seriado chamado ‘Once Upon a Time’; nele, a cada episódio, há uma história que se passa no reino mágico dos contos de fada e uma história que se passa no mundo real, na nossa realidade; os personagens são os mesmos, todos de contos de fada, e ambas as histórias ocorrem de forma paralela – ora eles estando na ‘fantasia’, ora na ‘realidade’. O sonho teve formato muito parecido. Eu estava sentada, na dimensão da ‘realidade’, vendo um seriado no qual meus amigos e eu éramos os personagens! E o cenário desse seriado que eu via era uma espécie de mundo mágico como ocorre em ‘Once Upon a Time’, mas um pouco mais violento, em um estilo parecido com ‘Game of Thrones’, que é outro seriado. Essas referências me deixaram bastante curiosa sobre esse sonho.

Nesse seriado que eu acompanhava (no sonho), havia um rei muito poderoso e querido por todo o reino – o Eddard Stark, de Game of Thrones -, que estava doente, de cama, e ficando senil, à beira da morte. O reino estava todo triste por isso, e eu também. Só que o personagem do seriado era TAMBÉM meu pai! Meu pai era esse rei que estava de cama. No seriado que se passava no meu sonho, eu era filha desse rei e uma guerreira aventureira, uma ‘amazona’, e saía para aventuras com meus amigos, que também eram cavaleiros (meu namorado e os amigos que temos em comum – todas essas pessoas existem fora do sonho, aliás). Uma amiga minha (que tem o mesmo nome que eu, e também existe fora do sonho) ficou no reino, fazendo companhia para meu pai. Ela era uma amazona muito leal e virou uma espécie de ‘guarda-costas’ do meu pai enquanto partíamos para uma rápida missão fora do reino. Essa amiga minha, na vida real, é namorada de um amigo nosso, que também estava no sonho e também era um cavaleiro; ele partiu comigo, com meu namorado e outros amigos para a jornada enquanto ela tomava conta do rei. Todos usávamos armaduras pesadas, e inclusive, quando ela ficou com meu pai, o rosto dela não estava à mostra – estava usando um elmo – embora eu soubesse que era ela.

Da dimensão da ‘realidade’, eu via tudo o que se passava no seriado. Meu pai, um pouco débil pela doença, falava para a minha xará coisas sem sentido, contando histórias sem nexo deitado em sua cama, enquanto ela se encontrava ajoelhada, leal e vigilante, escutando-o atentamente e entristecida por ele estar doente.

A cena corta e eu vejo (da tela da TV) meus amigos e eu retornando da nossa missão. Na cena seguinte, no reino, aparece um cenário de duelo prestes a acontecer; há uma arena pequena cercada por pessoas que gritam, comemorando o início de uma luta e, no centro da arena, estão as duas pessoas que vão duelar – e fico surpresa ao constatar que os duelistas são meu pai e a minha amiga, um contra a outra! Vendo da televisão, fico chocada, sem entender por que meu pai doente está para duelar com ela. Ele aponta uma lança para a minha amiga e a série mostra um flashback – que é ele se lembrando de, há muitos anos, ter matado um inimigo com aquela mesma lança. Ele inicia o mesmo movimento ameaçador que usou para matar o inimigo, desta vez para lutar contra essa amiga. A cena corta antes que ele acerte ela.

Na cena seguinte, meus amigos e eu, todos de armaduras pesadas, aparecemos retornando de nossa cruzada e vendo o reino de longe; escutamos trombetas de duelo à distância e a gritaria também distante de uma multidão; eu, que estou à frente do grupo de cavaleiros, acho tudo estranho e pergunto: ‘O que está acontecendo? Duelos só acontecem na presença do rei, mas ele está muito doente e muito fraco para isso! Quem está lutando e como conseguiu montar uma arena sem meu pai?’

Percebemos no ato que tem alguma coisa estranha no ar e entramos na cidade bem apreensivos. O namorado dessa minha amiga acha tudo estranho e parece meio nervoso, como se soubesse que algo está acontecendo com um ente querido. A cena corta e eu vejo minha amiga caída no campo de duelo, as pessoas comemorando ao redor e meu pai triunfante por ter vencido. Sei que é ela mesmo que está morta porque reconheço a armadura que veste. Nesse momento, dando um enfoque ao corpo dela estendido no chão, o episódio acaba e, na dimensão da ‘realidade’, meu namorado chega em casa com compras, e eu pergunto pra ele: ‘por que o rei foi lutar contra ela? O que está acontecendo? Não estou entendendo nada dessa série’. Ele me responde ‘Vê a série até o final, depois você vai entender. Ela aceitou lutar para realizar o último desejo dele: participar de um último duelo’.

Sinto uma angústia pela amiga que morreu e fico caçando freneticamente o próximo episódio para continuar a ver e tentar entender o que acontece; nesse instante, acordo.”


Olá,

Dado o seu relato, tenho poucas dúvidas de que a sua amiga, no sonho, é você mesma. Não por acaso seu inconsciente elegeu uma pessoa com o mesmo nome que você dentre seu círculo de conhecidos – foi um jeito de representar você mesma em sonho. Assim, em nenhum momento estamos realmente falando dela. Seu sonho possui muitos disfarces, desdobramentos, narrativas e personagens – a razão para isso, pelo que você mostra, é justamente o fato de você gostar de histórias, ficção e fantasia, pelos seriados que menciona.

Apesar de tantos elementos juntos, distorcidos, é possível sugerir que você está, na verdade, falando de si mesma e de sua relação com sua figura paterna. De maneira épica e com muita fantasia, você coloca a si mesma como uma heroína, uma guerreira que tenta, em vão, resgatar o próprio pai e, ao final, percebe que ele não pode ser resgatado. Colocando-se como espectadora do “seriado”, a pessoa que vê tudo da tela da “realidade”, você demonstra que atualmente se encontra em um contexto de esclarecimento sobre sua história pessoal e, desse ponto de vista privilegiado, percebe como tem tentando resgatar sua figura paterna, “salvá-la” – mas constata que é em vão. E a sua amiga que morre é uma parte sua que queria resgatar essa figura – porque você percebe que as coisas são como são e não há nada de sua figura paterna a ser resgatado. O seu pai, ao matar essa parte existente em você, representa a realidade matando essa faceta sua, como se mostrasse as coisas como elas são, e que você nada pode fazer por seu pai ou pelo que ele representa no seu inconsciente como figura paterna. Que não há o que “salvar” – ou resgatar.

Trazendo a história com roupagem épica e a si mesma e a seus amigos como cavaleiros heróicos (bem como a parte sua que morreu), você se coloca como alguém que quer vencer na vida e se sentir mais forte, mesmo que não tenha a figura de seu pai para ampará-la. Uma pessoa que se sente sem pai, mas que quer mostrar força e bravura perante a vida apesar disso. E que, além de reconhecer a ausência dessa figura paterna, reconhece também que tentar resgatá-la é uma ilusão, porque não há nada em seu pai a ser mudado – as coisas são como são. Trazer isso num cenário de fantasia ficcional suaviza essa dura realidade. Mas é essa realidade que vai te fortalecer.

Abraços,

Carmem e Bárbara

Créditos da imagem: arte de Jenny Dolfen.

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