Gosto de Sangue

“Sonhei caminhando pelo bairro onde morava com minha mãe, era noite, logo na esquina encontrei duas crianças brincando na qual a maior jogava a menor para o alto e a deixava cair, corri para ver se ela estava bem, havia machucado a testa, perguntei pela mãe da criança e, enquanto caminhava minha prima que eu havia feito um comentário sobre ela, enquanto estava acordada, ela apenas sorria, o cenário da criança havia se dissipado, continuei a caminhar, passei em uma amiga da minha mãe que mora na sua até hoje e, ao chegar em seu portão, vi dois tanques enormes de roupas para lavar, de repente comecei a sentir a minha boca com gosto de sangue, cuspia e via sangue, então resolvi pedi ajuda a essa amiga da minha mãe o cenário havia mudado, ela dormia com seu filho adotado em um colchão no chão, ele estava com aparência de pequeno ainda, pedi que não acordasse sua mãe e fui para casa, bati na porta e minha mãe que abriu, na minha cabeça eu achava que anteriormente em algum lugar que estive antes, poderiam ter me envenenado, e eu precisava de ajuda, já que o sangue aumentava e pedi para minha mãe que ligasse para ambulância, pois poderia não dar mais tempo de me salvar e eu morreria, então ela me respondeu: deita que amanhã você estará melhor, e me direcionei para tentar achar um telefone pois ela nem ligou, e entâo acordei.”


Olá!

O seu sonho dá vários indícios de que você se refere ao seu relacionamento com sua mãe. É como se você falasse de como enxerga essa relação – transmite uma imagem que seu inconsciente retém de sua mãe. Entende? Como você vê isso.

Tudo acontece no bairro onde morava sua mãe e todos os elementos remetem a ela.

As duas crianças brincando me acenderam uma luz sobre o que poderiam ser. Quando você me diz que as duas brincavam de maneira que a maior jogava a menor para o alto e a deixava cair, você me diz que há uma insegurança e uma ausência de responsabilidade nessa história. Quer dizer: é como se fosse esperado da maior que ela tivesse mais cuidado só que, em vez disso, ela adota uma brincadeira arriscada, não colocando a menor em segurança. São duas crianças juntas, em que a maior (ou mais velha) não consegue cuidar da menor. Como são crianças, a maior, quando joga a menor no chão, mostra que, embora seja maior e até mais velha, ela é impotente demais para não machucar a outra, chegando até mesmo a tentar “manobras perigosas”, colocando a outra em risco.

Adiante, você vê dois tanques de roupa para lavar: conhece a expressão “lavar roupa suja”? Diz respeito a uma relação entre duas pessoas (dois tanques) e algo que não foi resolvido. Os dois tanques de roupa para lavar também representam o acúmulo de coisas que você sente que deve cumprir como se você também tivesse tantas obrigações quanto sua mãe.

O número dois aparece de novo, desta vez com a amiga da sua mãe e o filho adotado e ainda pequeno: aqui nós temos um deslocamento. Quando você fala da amiga da sua mãe e o próprio filho, você deslocou os seus afetos com relação à sua mãe para essas duas pessoas.

Quando você se sente envenenada e começa a cuspir sangue, estamos falando de algo interno que começa a transbordar e de perda de energia vital. Você vê o tanque e sente o gosto de sangue; cuspia e via sangue. Perder sangue significa perder energia vital, mas também podemos falar de algo muito íntimo que transborda – e até mesmo a expressão “gosto de sangue na boca” – que remete a tristeza, mágoa, rancor. Algo muito reprimido que sai, te causando mal-estar, que transborda. Então, ao mesmo tempo você poderia se sentir como se tivesse tantas obrigações quanto sua mãe e isso incomoda lá no íntimo, transbordando de forma visceral.

Então você vai para sua casa e pede que sua mãe a ajude, chame uma ambulância para salvá-la, e ela diz “deita que amanhã você estará melhor” – então você mesma tenta resolver o problema. Ou seja, quando você sente que precisa de ajuda, que algo está acontecendo, sua mãe reage de maneira impotente. Ela tenta ser solícita falando para você deitar, mas há aí uma superficialidade, uma impotência até mesmo infantil – ela não é capaz de lidar com a situação realmente e você percebe que “ela nem ligou”. E você mesma se vê obrigada a tomar uma iniciativa que ela não toma.

A impressão que o sonho dá é que você revisita de diversas formas uma interpretação que você carrega do seu relacionamento com sua figura materna e que há muito reprime. Primeiro, coloca você e sua mãe como duas crianças (em vez de você ser a única criança); ela é um pouco maior e a lança para o alto, permitindo que se machuque. Em seguida, você se coloca como o menininho adotado e pequeno dormindo no colchão com a mãe, e, mesmo querendo ajuda, você pede que ele não acorde a mãe, ou seja: não acordar a mãe é ter um zelo por ela, sendo que a ordem natural das coisas é o contrário – é a mãe quem zela pelo filho.

E, por fim, você evoca realmente a figura de sua mãe, que, embora gentilmente diz “deita que amanhã você estará melhor”, na realidade, demonstra superficialidade e até uma indiferença diante da urgência que você demanda.

Não consegui distinguir elementos suficientes para entender o que sua prima pode significar, mas talvez você a tenha evocado porque ela contribua de alguma forma com esse tema. Tanto a mãe do filho adotado quanto a aparição oportuna dela dão a impressão de que, na ausência de uma mãe completa, capaz de cuidar do filho em vez de por ele ser cuidada, você buscasse “outras mães”, até quisesse ser filha de outras mães para não lidar com esse fardo – que, no caso, é ser alguém que você não é, “mãe de sua mãe”. A pessoa que carrega muito peso.

No todo, o que você transmite é que tem a sensação de que sua mãe não cumpriu tudo o que ela deveria cumprir em relação a você, sendo impotente, vulnerável e superficial como uma criança, de modo que você teve que se virar e se cuidar, tomar a iniciativa inclusive para se proteger. E, mesmo tendo sobrevivido e demonstrando iniciativa, você ainda sente o gosto de sangue e percebe que há roupa suja para lavar. Como se adoecesse para cuidar da mãe.

Conflitos com a mãe são muito repreendidos em nossa sociedade que crê no amor incondicional materno e louva a relação mãe-filho; além disso, estamos muito ligados ao conceito de famílias pelo laço de sangue, de forma que, na sabedoria inconsciente e coletiva, esse tipo de sentimento é inaceitável – e também é inaceitável para o ser humano, o indivíduo em si em seu mundo particular, em sua formação infantil e em sua busca pelo afeto dos pais e do mundo. A criança vê nos pais seu primeiro objeto de amor, por isso é inaceitável para ela mesma criticá-los. Por isso, esses desejos de separação aparecem de forma deslocada, condensada, difusa em sonho – na inconsciência.

Esse é um sonho que sugere conflito com a mãe.

Esperamos ter ajudado!

Abraços

Bárbara

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